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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Lanvin@H&M é o vintage de amanhã

Ok, então eu não cheguei a Regent Street às 9h.

Bem que eu fiquei tentada pelo colar rubi - 29,99 libras esterlinas.

Colar Lanvin para H&M, 29,99 libras esterlinas.

A verdade é que, mais do que comprar o colar-fantasia, eu queria ver mesmo a fila em frente as duas H&M perto da Oxford Circus. Adoraria ter visto o momento de espera e da entrada. Talvez as meninas correndo entre uma loja e outra tentando pegar ali e que não conseguiram acolá.

Entre este compromisso e outro - um leilão de moda vintage do outro lado da cidade - preferi a segunda opção.

Há uns dois anos escrevi uma matéria para a Vogue sobre os leilões de moda (e volta e meia falo deles aqui) e como eles podem se a fonte ideal para closets ávidos de qualidade, exclusidade e uniqueness. Diferentemente dos leilões a la Sotheby's e Christie's – estarei na primeira fila do leilão das joias da Duquesa de Windsor na New Bond Street –, os preços aqui são amigos e o clima é informal.

Kerry Taylor trabalhou para a Sotheby's e em 2003 decidiu abrir uma casa de leilão dedicada apenas às frescuras que ela ama: moda, acessórios e tecidos do passé bien composé.

O endereço não tem nada de estrelado. É uma sala grande do segundo andar de um prédio baixinho de escritórios – ateliês de joia, design, arquitetura – que parece uma velha fábrica abandonada. (Aproveito para buscar um macchiato e com tantos corredores e escadarias consigo ver uma cena de O Iluminado sendo filmada ali. Uia!)

Kerry comandou vários leilões apetitosos: o do closet da Daphne Guinness, da Jerry Hall e dois que eu, particularmente, gostaria de ter presenciado: a coleção de alta costura da atriz Leslie Caron, com peças dos 1950s e 1960s, e da Audrey Hepburn.

Os lotes de hoje eram, com um ou outra exceção, anônimos na propriedade, mas estrelados na etiqueta. Muito Dior, Gaultier, Ossie Clark, Courrèges - e alguns Mary Quant, Cardin, Biba. Também teve uma leva enorme de roupas do século 19 e da década de 1930 e peles de tirar o fôlego. Além da roupa, bijoux - Gripoix (responsável pelas pérolas fakes de Chanel nos anos 1920), Scémama - mas esta fatia do leilão fica mais cara. Com as mesmas, digamos, 200 libras esterlinas que você adquire um tailleur Mugler dá para comprar um par de brincos Gripoix. Por fim, croquis originais de Lanvin, entre outras maisons (essa parte, para mim, tem sido absolutamente irresistível).

Veja o lugar como é nonchalant. A maioria das pessoas é dona de vintage stores, que arremata aqui aquilo que será vendido (e cobrado) como tesouro nos melhores brechós. (na próxima visita a Londres, considere sair do circuito New Bond Street e parar aqui nessa bairro afastado do centro.)



O mais bacana é presenciar o jogo de cena. Os lances podem ser feitos previamente, quando as peças já foram exibidas para avaliação do público. Daí que às vezes Kerry já tem na mesa lances iniciais. Os lances sobem de 10 em 10 libras - às vezes de 20 em 20 ou de 50 em 50. As pessoas são menos discretas fazendo suas bids dop que vemos nos filmes. Kerry diz:

- I have 350 in the room. (tenho 350 na sala, em oposição às apostas vindas pela internet e por telefone).

Pelo telefone, as moças que representam os compradores dizem:

- 350 against you. Would you like to bid? (350 contra você. Você quer dar um lance?)

É um repetição exaustiva, daquelas que acaba virando uma música de fundo meio alucinógena. Deve influenciar na disputa entre compradores, porque há sempre alguém que comete um crime desnecessário como o de hoje: por telefone e por internet, duas pessoas disputavam uma coleção de 14 edições inglesas de Vogue, publicadas entre 1952 e 1955. O lance inicial era de 100 libras esterlinas. Foi arrematado por 2 200 libras esterlinas (pouco menos de seis mil reais). Kerry riu e arrematou:

- Nossa, acabamos de estabelecer um recorde de vendas para Vogues vintage!

DItto quando Kerry vendeu por 1,5 mil libras esterlinas um míni Pierre Cardin para a Miss Selfridges, datado de 1966. Junto com o vestido de brocado azul e prata, vinha o livro Sixties Fashion (Berlin State Museum) mostrando o modelo original, da alta costura, base para essa versão high street leiloada. O preço alcançado foi cinco vezes mais do que o arremate estimado por Kerry, que também não aguentou a língua: "Nunca um vestido Miss Selfridges custou tão caro". (como se vê, é nada novo convidar um estilista para fazer uma coleção especial para o high street/fast fashion)

Pierre Cardin, alta costura 1966


Pierre Cardin para Miss Selfridges: a versão high street da coleção master

Como o hoje repete o ontem e idem para o amanhã, quem disse que em quatro décadas os vestidos Lanvin para H&M, vendidos nesse 23novembro na lojas da rede sueca por 99,99 libras esterlinas, não serão o vintage high street de amanhã? Só o tempo dirá se costura e tecidos resistem a passagem das décadas. Recomendo a quem comprou guardar as sacolas de papel ilustradas por Alber Elbaz e devidamente datadas "hiver 2010". Se nos leilões de vintage fashion se repetir o procedimento dos leilões de joias – caixinhas Cartier fazem crescer consideravelmente o preço do lance inicial –, essa sacolinha (que por si só já era uma boa razão para comprar qualquer bobagem de 5 pounds hoje na H&M)
.

Na saída do leilão, fui para as H&M da Oxford e Regent para ver a cena. Prateleiras vazias e só uma leva de sapatos, cintos, vestidos e casacos permanecia nas araras. Os seguranças ainda organizavam uma fila de interessadas na coleção pop de Elbaz: só entra uma quando sai outra, igualzinho a lei do closet perfeito.

O que eu comprei? Mmmm, como eu estou intoxicada com ilustrações de moda e croquis vintage, nada abala meu cartão de crédito - nem mesmo o futuro vintage. Mas garanti uma lembrancinha para a minha irmã petite e um gracinha extra para uma amiga. As caixinhas são uau! Como nas embalagens do mundo do luxo, podem impressionar mil vezes mais do que o conteúdo.



ps. dá para dar lances do Brasil, sim. Inscreva-se no site da Kerry para ter updates. É ali que você vai olhar os lotes que estarão à venda. Olhe e escolha para já formar uma shoppping list. Depois, basta se registrar no Artfact para dar os lances pela internet. Mas é bom saber que sobre o preço do arremata vão incidir 20% para a casa de leilão, 3% para o Artfact e mais a percentagem do cartão de crédito Visa, 3%, Amex 2,6%, Mastercard, 3,1%). Faça as contas.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A TEORIA da alta costura prática

Alta costura é muito fácil de se amar.

Para qualquer dedicada seguidora da moda - não necessariamente consumidora da roupa de ateliê -, a alta costura é a realização do momento Cinderela. Não pelo vestidão, mas pela fada madrinha (estilista) e pelos hábeis ratinhos (costureiras) que constróem uma roupa feita sob medida para o seu corpo/proporções. E, com sorte, para o seu tom de pele, modos, postura, blá, blá. Para você.

É o objetivo da roupa em si: uma embalagem uau que promete um conteúdo idem. A razão de ser da moda e do ofício do estilista. O resto é pastiche.

Insistir que a alta costura obsoleta é matar o modelista, as costureiras, os bordadores, os alfaiates e toda a cadeia artística necessária que faz da moda não apenas uma imagem (ou você pensa que é uma bonequinha de papel vestindo roupas de papel?), mas uma peça tridimensional com uma função muito superior a chatice eterna da busca pelo status- da grana, da novidade.

Por aqui, estilistas que amam o ofício da costura (André Lima, Ronaldo Fraga - que fez um desfile-ode às costureiras) lidam todo dia com a falta de gente para transformar suas ideias em roupas viáveis e vestíveis. Marcos Ferreira, que é capaz de apontar a diferença entre alfaiataria da escola alemã e da escola inglesa (eita!), diz que está cada vez mais difícil encontrar bons alfaiates. Sem gente que saiba deixar um ombro impecável (Chanel era inimitável, como Lagerfeld lembrou no curta para a coleção Paris-Shanghai e José Gayegos, modelista-mór entre nós, confirma), não há Saville Row nem elogios à alfaiataria de Stella McCartney.

PARIS-SHANGHAI : A FANTASY
THE TRIP THAT COCO CHANEL ONLY MADE IN HER DREAMS.
Karl Lagerfeld, dez2009



A questão é como mantê-la relevante - não apenas só uma espécie de post it de como a moda funciona na base, antes de ser mercado de massa - e muito além do baile?

Uma geração de novos costureiros está atrás da resposta. E Alexis Mabille, que eu entrevistei para a Vogue justo numa história justamente sobre a haute, no desfile de ontem (5jul) em Paris, chegou muito perto (senão à) da resposta.

Inspirado talvez pelos tempos de cintos apertados (não que crédito seja um problema dessa clientela - uma peça dele custa, média, 8 mil dólares), Mabille fez um desfile de separates - a calça, a blusa, a saia, o casaco - que, styled de diferentes jeitos, multiplicam o look.

Quão banal, cotidiana, pode ser essa ideia?

Não satisfeito, Mabille desobedeceu as regras do jogo e desfilou a mesma peça mais de uma vez, num "assim ou assado" que pode ser ainda mais multiplicado em casa.




















A nova moral da história são peças-investimento. Sai o "use apenas uma vez no baile do Crillon", entra o "use muitas vezes". Não importa se você não tem 8 mil dólares.

Para quem deseja uma vida de alta costura (dá para esquecer os editoriais da Vogue América com a modelo fazendo compras no mercadinho metida num longo Lacroix ou enchendo o tanque de gasolina num monumental Dior?), essa é a alta costura da vida real. Um lembrete da função original da roupa - e da importância de ser bem feita. Ou como diz aqui Inés de la Fressange: uma casa de tijolos no lugar de uma cabana pré-fabricada.

Onde você prefere morar?

domingo, 25 de outubro de 2009

A TEORIA das bares necessities - parte 3

Em Uma Filha de Eva, Balzaz escreve:

"Ademais, o que dá tanto atrativo a essas festas preparadas para o olhar, seios comprimidos como os apreciava Jorge IV, ou separados à moda do século XVIII, ou tendendo a se aproximarem como os queria Luis XV; mas exibidos com audácia, sem véus, ou sob aquelas gargantilhas franzidas dos retratos de Rafael, triunfo de seus pacientes alunos."

É, literalmente, o corpo submetido à moda, à lingerie, ao olhar do homem, ao poder.

Se todas colocam prótese, imagino que Balzac notaria que hoje os seios precisam ser como melões, aproximados pelo tamanho e não pelo esforço corset e paralelos ao chão, como que imunes à gravidade.

domingo, 18 de outubro de 2009

A TEORIA das bare necessities 2

Os assuntos do momento - underwear como outwear e loungewear – não nasceram hoje.

que surpresa! (not...)

Fotos Nina Leen, 1944.

























segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A TEORIA das bare necessities

YSL, verão 2010



YSL, verão 2010



YSL, verão 2010



Prada, verão 2010



Prada, verão 2010



Prada, verão 2010



Fendi, verão 2010



Fendi, verão 2010



Dolce&Gabbana, verão 2010



Dolce&Gabbana, verão 2010



Dolce&Gabbana, verão 2010

Mais e mais a lingerie – ou o que ela representa – tem se mostrado o discurso atual das passarelas.

Na estação passada, corsets e transparências desconcertaram a audiência. Não por pudor, mas por colocá-la frente à frente com a imagem de sexo/sensualidade 1940s – forte, assumida e extremamente adulta e feminina – apagada do repertório da mulher do século 21.

(leia mais sobre em minhas matérias para a Vogue de setembro (Tire o corset do baú, sobre o dito cujo) e de outubro (Peep show, sobre as transparências)

Há um lado colete à prova de balas neste corsets – o mais, digamos, caricatural deles em sendo a armadura-medieval Fendi sobre vestidos Sofia Loren passados na cor camelo. No sentido metafórico, é como se as barbatanas da peça estruturassem a mulher para encarar o mundo de peito aberto. E firme, no lugar.

Como nos 1940s, quando as mulheres assumiram postos nunca antes imaginados/permitidos.

Uma exposição recente em Paris expôs um lado pouco comentado da França Vichy: fotos de André Zucca do cotidiano de mulheres bem vestidas, com jóias e sapatos dominatrix, se maquiando (já falei disso aqui, do ponto de vista dos sapatos).

As cenas causaram polêmica e repulsa. "A verdade é que as pessoas se adaptaram à ocupação", explicou à época Patrick Buisson, autor de 1940-1945 Années Erotics (1940-1945 Anos Eróticos). "Era preciso provar que se estava vivo e as pessoas sentiam isso fazendo amor." Ou se maquiando. Ou usando corseletes para dar bandeira.

Devagar, no entanto, o gesto de sobrevivência da mulher-sexual dos anos 1940 dá sinais de que vai abrir caminho para a mulher-objeto sexual, insinuando que a onda 30/40/80 vai, ao longo das próximas temporadas, virar 50/60/90.

No desfile de alta costura Dior, inverno 2009, John Galliano recorreu a fotos de arquivo de Christian, o original, vestindo as modelos no backstage. O resultado é um otimismo em forma de cores, saias rodadas a New Look e as curvas marcadas por sutiãs estruturados.

Assim:




Fotos de calcinhas Playtex e sutiãs, de Gjon Milil, 1951.

Calcinhas da vovó se juntam no verão 2010 às transparências e aos corsets e sutiãs que continuam saindo do armário. Ainda que um lado seja meio calcinha da vovó mesmo - a função do Playtex, por exemplo, é segurar o que a gravidade já condenou - há toneladas de calçolas bem boudoir nas passarelas (em defesa da calcinha à moda Playtex, há misturas bem esportivas, bem Alexander Wang).

Estamos sendo expostas a um realidade que já não faz mais parte da nossa vida.

Sexuais ou objetos-sexuais, mulheres d'antanho tinham intimidade com a roupa íntima. E a roupa íntima tinha mais camadas do que meros um sutiã + uma calcinha quaisquer da gaveta. Cinta-liga, anágua, combinação – enfim, essas coisas todas muito além da nossa preguiça atual de ser mulher-feminina também por debaixo dos panos.

Quantas de nós estaremos de fato preparadas para bancar essa nova/velha mulher?

Suponho que pouquíssimas. E poderíamos dar as desculpas mais diversas, da falta de tempo à ressaca da revolução feminista.

Muitas décadas já se passaram desde a tal queima do sutiã. Todas já podemos reestabelecer o convívio com a peça que no mínimo impede que você chegue aos 50+ com bexigas murchas (é mais do que muita coisas feita em nome do amor próprio e da boa aparência).

Há um sentido de função na lingerie na mesma medida em que há um sentido de fantasia.

Estilistas parecem nos dizer que podemos olhar para todos os papéis da mulher do século 20 - dona-de-casa, peça de reposição na linha produtiva, objeto sexual, homens de saias (ou seriam mulheres de calças?) – e nos despir de ideias passé. Fazer delas o que bem entendemos (não era esse o plano?).

A segunda metade do século 21 começa prometendo que podemos ser femininas (não é isso, de uma certa forma, que dizem as intimidades expostas na passarela?) sem que isso signifique fraqueza, humilhação, bláblá...

Começamos, então, reconquistando o nosso direito básico de ser mulher. Inclusive escolhendo ser objeto sexual, nem que seja por um espaço limitado de tempo e de boudoir.

(ps. É como voltar nos anos Dior e poder revivê-los com autonomia. Dior já dizia: "Sem a base, não pode haver moda." Por base entenda-se nosso closet fundamental: lingerie.)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A TEORIA das unhas

Faz um tempão que eu não teorizo sobre o que é aparentemente "inteorizável". Mas é.

Mas eu acho que nasci com um termômetro interno sensível às oscilações estéticas. Mesmo as de beleza – minha amiga Kate, que começou a carreira de jornalista indo da Febem (como repórter, não como interna, afe!) para o beauty counter sem querer (logo, logo vem com um blog do bom sobre o tema) pode provar como eu, instintivamente, adivinhava qual era a próxima modice. Em beleza.

Então, meu termômetro interno começou a oscilar de um jeito esquisitíssimo. Faz uns dois meses mais ou menos que eu não consigo pintar as unhas das mãos. Tenho uma reação de horror só de pensar em passar um tomate, um preto, um coral, um rosa-choque, as minhas cores favoritas.

Tentei driblar essa reação natural com o óbvio: um nude. Não deu. Fui um passo adiante: um nude transparente (Ilha do Mel, Colorama) e depois um pó-de-arroz transparente (Dior). Mal conseguia olhar para as pontas dos dedos.

Denise Dahdah, outra amiga de antenas estreladas, saiu fuçando as preferências por aí e para si.

Zeitgeist!

Tem muita coisa acontecendo no mercado do esmalte. Eu mesma já postei aqui o rosa-maravilha de John Galliano, azul noite, violeta vingativo e verde-jade de Chanel, a ideia de pintar as unhas de diversas cores (também na Triton e no Sea of Shoes). Tem os neon e as cores frias.

A rever:

Dior, inverno 2009: as unhas-meia lua das garçonnes foram inventadas por uma manicure da MGM nos anos 1920. Minha avó se lembra de ter usado e John Galliano vem investindo nesse look há uns bons dois anos. É a menos novidadeira das novidades.

Thakoon: variação sobre o mesmo tema.



Chanel, verão 2009: o jade art déco, monstrando que a estética do entre Guerras está mesmo em alta.



Jean Paul Gaultier, alta costura inverno 2009: glamour hollywoodiano com unhas longas, ovaladas e laranjas.

Jean Paul Gaultier



Unhas neon-pop-80s



Sea of Shoes num momento uma única unha distoante...



...e no arco-íris com bootie Givenchy de quatro temporadas atrás.



2dn Floor num momento Sea of Shoes, verão 2010.

Nas ruas em Nova York (Issac Brekken para o NYT)


Tudo parece divertido e intenso. Penso que são respostas plausíveis ao momento: enlouquecendo, repetindo o passé e criando versões cada vez mais personalizadas, para tempos em que o self chegou ao topo.

Unhas, mais do que os cabelos, podem responder descompromissadamente ao ar dos tempos. (dá para mudar de um dia para o outro sem que isso coloque em cheque a sua identidade. Nos cabelos, não preciso nem dizer o efeito de corte ou uma cor heterodoxa.)

Tanto que há empresas que já desenvolvem um jeito de você se camalear rápido, sem aquele hábito bem brasileiro de esperar uma semana para fazer as unahs e só então mudar o visual. A Minx vive da ideia de criar unhas personalizadas, mas que funcionam não como unhas falsas mas como esmaltes adesivados. Cansou, descolou.

Curioso, mas para mim não funciona. Comecei a sentir vontade de esmaltes opacos, em duas versões:

1. coloridos. Sim, sem brilho algum. Zero. Como os paetês opacos que Andrea Garcia vai usar na próxima coleção. É um glamour subversivo, sem holofotes, um pouco melancólico talvez, desgastado e envelhecido como uma sobrevivente do último Baile Fiscal depois da festa consumista dos últimos anos. Achei aqui (gosto especialemente do rosa pálido) e aqui, seis cores lançadas em julho (Alpine Snow (branco básico), You Don’t Know Jacques! (café com leite), La Paz-itively Hot (rosa-choque), Russian Navy (azul noite), Lincoln Park After Dark (ameixa) e Gargantuan Green Grape (verde abacate).

2. base. Este é o look de unhas que estou usando no momento: lixadas bem curtas, respeitando o formato proposto pelo contorno branquinho. Base opaca é meu objetivo (ainda não conquistado). Testei a base masculina da Risqué nes esperança de dar a unha um verniz fosco e achei nada opaca. A ideia é dar a impressão mais natural possível para as unhas sem que elas fiquem descobertas (preciso do esmalte para ajudar a segurar minhas cutículas frágeis). É como se nas mãos eu já refletisse a regata nadador mescla+perfecto preta+jeans reto índigo blue – um look zerado, sem montação, de recomeço. Que se instale, finalemente, os 90!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A TEORIA DO mais do mesmo

No ano passado, numa das vezes em que Marie Rucki – a personificação do Berçot – esteve em São Paulo, ela disse que tudo já foi feito. Nada mais há para ser criado. Não haverá uma calça de três pernas ou um novo susto como o smoking ou a minissaia. Daqui por diante, faremos pequenas revoluções de comportamento, reeditaremos o passado com olhos contemporâneos (ou não, com olhos do passado mesmo) e veremos mais do mesmo.

É justo. Parece que esgotamos todas as possibilidades do século 20 e vivemos agora de requentá-las. E entramos o século 21 com um assunto que parece novo, mas que, na verdade, está em pauta desde a década de 1980: sustentabilidade. E como isso vai afetar nosso dia-a-dia e, inevitavalmente, nosso jeito de vestir e de consumir.

Nesse sentido, Stella McCartney e Osklen – por exemplo – são a fina flor do prafrentex (para reeditar uma expressão cinquentinha). Não necessariamente em termos de proposta estética já que a especialidade de ambos é reeditar o passado, no caso de Stella, e a rua, no caso de Oskar, de um jeito 'hoje'. Stella veste mulheres cuja carreira e família são totalmente compatíveis com sex appeal. É a sua imagem e semelhança, apoiada em clássicos revisitados da alfaiataria e na vida flower power (pense maxitricôs) que ela levou com os pais no melhor estilo Mull of Kintyre. Oskar Metsavaht dá finesse para o streetwear. Moletom-couture, num exagero de poesia, parece, no fim das contas, uma solução para os desencanados tempos modernos. É um jeito de se vestir sem se sentir 'se arrumando'.

O que faz deles '21' é a postura verde diante da criação. Se consumo consciente para os consumidores significa gastar muito menos, para os estilistas é justamente buscar alternativas para "compras zero-culpa": matéria-prima orgância e vegetal, processos não-poluentes, energia eólica, reciclagem. Quanto mais responsável o consumidor, mais exigências se faz: não ao trabalho escravo, remuneração decente ao empregados, condições humanas de trabalho. Paga-se feliz pelo jogo limpo por trás da etiqueta – e não mais pela etiqueta pura e simples. O status, no futuro, será outro.

Mas ser verde é apenas um o jeitos de ser relevante agora.

Os estilistas respondem de maneiras diferentes aos cutucões desse começo de novos tempos. Na temporada de Nova York (inverno 2009/10), a resposta vem como um déjà vu. Há mais do mesmo, milimetrica e confortavelmente no lugar: a cintura, o preto, o cabelo. Há um replay unânime dos anos 1980, com meia-arrastão, assimetrias/geometrias, pink/laranja ácidos, penteados pós-punk/new wave, botas altas, short e meia-calça, perfecto, óculos-máscara.

Presos entre o crash da economia americana e a necessidade de fazer algo vendável, os estilistas de lá parecem ter respondido com o exagero oitentista que o país experimentou depois de superar a crise do petróleo, de 1973 (economistas declaram que a situação de hoje é, afinal, um replay desses piores tempos para eles).

Marc Jacobs, que fez um dos melhores desfiles da sua carreira na estação passada, deu uma aula de história club dos 1980. E explicou para o NYT que não sabia o que fazer diante da crise a não ser voltar a um tempo em que as mulheres tinham prazer em se arrumar, com A maiúsculo. O problema é que Jacobs é mestre em ser atual. História, para ele, é só um componente da criação. Não o todo. Como show, não palpitou (embora as roupas, separadas, tenham sempre apelo no showroom). Foi como entrar no acervo da mãe e brincar de dress up com as amigas.

Essa resposta é condenável? É difícil de dizer. Jacobs quer se divertir, quer que as garotas se divirtam – como já se divertiram no passado. Mas as coisas já não são como eram antes, como diria Marvin Gaye, e até Oscar de la Renta e sua clientela acima de qualquer dilema bancário sabem disso.

Como as coisas serão é que são elas. Se eu soubesse, não estaria aqui. Estaria na vanguarda da moda.

E se mais do mesmo é que veremos por um bom tempo, em breve vamos zerar os 1980s e revisitar os 1990. Vou sair já em busca da minha camiseta branca perfeita (de algodão orgânico) e de jeans ideal (tingido com índigo real, feito no tear do século 19 e sem poluir o ambiente). Nada será tão século 21. Pelo menos até o século 21 de fato chegar.

domingo, 2 de novembro de 2008

A TEORIA da compra sustentável +

receita de beleza na prática no fim deste post!


O texto do NYT sobre esse novo termo da moda conclui que recessionista – o fashionista em tempos de recessão – nada mais é do que uma desculpa para comprar mais do mais barato.

Não sei vocês, mas o ar dos tempos me pegou de outro jeito. Não tenho vontade de comprar baratinho pra comprar mais.

Tenho andado mais depressionista num certo sentido.

Não tenho vontade de ir às compras. É mais assim: não tenho vontade de gastar em algo que daqui a três meses ficará datado com o prefall 2010. Tenho vontade de arrematar uma sandália meia-pata Biba verão 2009 só porque ela é exatamente igual a uma desenhada pelo YSL original, 1970s - época em que ele reeditou os 1940s... Tenho vontade de achar a camiseta branca perfeita, o cashmere cinza mescla ideal...

E vontade de enxugar, enxugar, enxugar meu guarda-roupa a ponto de ele ficar mais sequinho do que Jean Shrimpton!


Jean Shrimpton por David Bailey, NY, 1962: charme e frescor com clássicos à prova do tempo (NY JS DB 62, da admirável editora, a Steidl)


Sexta, numa conversa com minha amiga Même, ela também se mostrou desanimada com o megasupérfluo. Não quer mais ser uma pessoa cheia de bolsas e sapatos - e só.

E no dia anterior, numa conversa ótima sobre o mercado com uma empresária de moda da nova geração, ela me disse que trabalhar com moda cansa o olhar - a gente acha tudo velho antes de a temporada se concretizar. Perguntava sobre as idéias mais bacanas do verão que ela iria adotar e ela suspirou 'o verão já era, já estou no inverno'. Estava de vestidinho preto, sandália rasteira com YSL de couro destacado no peito do pé, jaqueta perfecto, maxibolsa de couro. Brinquei que toda vez que a gente se encontrava ela estava de cor neutra, tudo muito básico, sem sobreposição, sem mistério (no bom sentido), tudo muito tranqüilinho e isso só acentuava meu lado (rocco) barroooooco. Mas ela tem coisas antiquésimas no armário, um armário que facilmente poderia engordar, engordar, engordar.

Rita, a estilista, desbafou no telefone comigo que está deprê com esse consumismo todo - parece uma praga de gafanhotos famintos só que soltos nas araras das lojas. Última das românticas, artistinha de alma e de família, ela não vê mais sentido em gastar viscoelastano para fazer MAIS UMA camiseta. Acha que a moda morreu - o que vai substituir a frase de Max Ernst ("Art is dead. Long live fashion") se fashion is dead? Long live marketing?!?

Ela quer reciclar tudo. Eu também - principalmente o jeito de usar as coisas que já temos. No Prêmio Moda, uma das mais bem vestidas era minha amiga joalheira, de saia-lápis e outra saia usada como top tomara-que-caia. Gloria Kalil usou um Lita Mortari antigo. Todo mundo atualiza, claro: Gloria escolheu sandálias pesadas Sergio Rossi, por exemplo.

Something old, something new - e esse novo bem escolhido, bem especial.

E assim caminha a humanidade.

Mas, se você ainda está com a coceirinha gastadora, leia The Thrift Book: Live Well and Spend Less, India Knight (Fig Tree) para usar o cartão de crédito com sabedoria.

India é uma autora de best-sellers em Londres - um deles sobre shopping, já que, como ela mesmo diz como boa filha dos consumistas anos 1980, não sente a menor culpa de ter um zilhão de bolsas. Eu me identifico com o que ela escreveu para o Sunday Times hoje: "It’s not that I can’t earn money, or that I don’t earn enough of it. It’s a complete inability to manage money, full stop — and, to be frank, an inborn lack of interest in doing so. I think I subconsciously saw my financial idiocy as a sign of a rather charmingly bohemian easy-come, easy-go approach to life in general. I know: it’s pathetic."

Ela entendeu que nada mudaria a não ser que ela mudasse o jeito de se relacionar com dinheiro - o que muita gente vai ter de fazer, querendo ou não, mais cedo do que tarde (não é Même?). Aos poucos, depois de virar ecoconsciente, sentiu um certo "nojo" de gastar simplesmente pelo fato de querer algo naquele minuto, fácil assim, vulgo compra por impulso.

Por fim, ela conclui exatamente o que a Rita concluiu no seu apezinho agora nos Jardins: eu vou fazer a minha parte, ainda que seja pequenininha. Parece pouco, mas a Rita está fazendo a parte dela aqui em SP (aguarde post com convite para a próxima idéia da moça), a India em Londres e de ponto em ponto se costura algo, não?

India descobriu a 'compra sustentável'. E dá as dicas, no artigo para o Sunday Times, de como viver bem e com estilo "valuing beauty, in saving money in unexpectedly satisfying ways and in feeling like a useful member of the human race at the same time as enhancing your life in dozens of little but significantly pleasing ways."

Ela recomenda:
* FAÇA COMPRAS ESPERTAS NO SUPERMERCADO: escolha produtos locais, faça compras diárias e leve apenas o necessário para o consumo imediato. Eu acho uma delícia fazer compras diárias, descobrir o que está mais fresco e pautar seu cardápio assim (que é exatamente o que os mestre-cucas fazem). Mas se você detesta mercado ou tem problemas em cuidar do lar (oh-la-la!) o jeito é comprar online para não cair na tentação da bobagem. E é bom também comprar seus produtos favoritos em mercados que não injetam no preço do produto luxos associados à experiência da compra (deixe a experiência da compra ser um item quando você for comprar seu eterno Louboutin, entende?).

* ALIMENTE SUA FAMÍLIA: com receitas caseiras, simples, feitas com produtos frescos. Girrrrls, se vocês assistem Jamie Oliver sabem que há um movimento aí - como diz a Rita, o luxo do futuro é esse tempo para fazer coisas gostosas, com produtos naturais, usar seu iMac no meio de um jardim florido e por aí vai... Bom, no caso das receitas, India diz que se você faz listas de compra semanais, consegue fazer uma refeição para servir, outra para congelar, duas usando sobras e mais e mais... Planejar e usar tudo de maneira inteligente é o lance.

* RECEBA DESPRETENSIOSAMENTE: comidinha daquelas que todo mundo ama, vinho, água - o principal é boa companhia. Não é preciso armar um jantar com ingredientes caros - se você está tentando impressionar os amigos, diz India, talvez seja hora de trocar os amigos.

* PENSE ANTES DE COMPRAR O PRÓXIMO LOOK: Uma etiqueta com poucos números pode ser tentadora, mas se você respirar dois segundos, se pergunte: como é possível algo custar tão pouco? Quanto deve ganhar a pobre alma que fez essa peça? Em que condições ela trabalha? Quando Ronaldo Fraga fez a coleção da China, visitou fábricas de roupas e viu uma linha de produção em que as mulheres ficavam sentadas em penicos - para evitar que tempo de trabalho fosse desperdiçado com uma ida ao banheiro (para mais histórias 'otimistas' sobre a China, leia Deluxe, de Dana Thomas). Não é preciso ir tão longe: como trabalham os bolivianos (ilegais) nas confecções de coreanos no Bom Retiro? Talvez em breve os fabricantes de roupas sejam obrigados a colocar uma etiqueta com informações sobre a peça, algo equivalente ao "nutrition facts" que os fabricantes de comida colocam em suas embalagens. Talvez eles tenham que dizer coisas como faz a indústria da beleza "não testado em animais": "nenhuma mão-de-obra infantil foi utilizada na fabricação desse tênis" e por aí afora...


* BELEZA ROUBADA: essa é de total responsa de India (eu não testei nem perguntei a minha dermato). Máscara de aspirina, uma receita que ela encontrou no makeupalley.com, um site de "street smart beauty"(!). Segundo ela, aspirina contém ácido salicílico (beta-hidroxiácido), componente principal de esfoliantes e cremes carérrimos. Receitinha: esmague seis aspirinas com uma olher. Misture com água para fazer uma pasta e aplique a mistura no rosto. Deixe agir por 10 minutos. Enxágüe, massageando. Use uma vez por semana - duas em caso de emergência.


Portrait (Miss N.) de Gertrude Kasebier (1852-1934): e se a pele ficar linda assim depois de tentar a máscara caseira de aspirina?