quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A TEORIA DO mais do mesmo

No ano passado, numa das vezes em que Marie Rucki – a personificação do Berçot – esteve em São Paulo, ela disse que tudo já foi feito. Nada mais há para ser criado. Não haverá uma calça de três pernas ou um novo susto como o smoking ou a minissaia. Daqui por diante, faremos pequenas revoluções de comportamento, reeditaremos o passado com olhos contemporâneos (ou não, com olhos do passado mesmo) e veremos mais do mesmo.

É justo. Parece que esgotamos todas as possibilidades do século 20 e vivemos agora de requentá-las. E entramos o século 21 com um assunto que parece novo, mas que, na verdade, está em pauta desde a década de 1980: sustentabilidade. E como isso vai afetar nosso dia-a-dia e, inevitavalmente, nosso jeito de vestir e de consumir.

Nesse sentido, Stella McCartney e Osklen – por exemplo – são a fina flor do prafrentex (para reeditar uma expressão cinquentinha). Não necessariamente em termos de proposta estética já que a especialidade de ambos é reeditar o passado, no caso de Stella, e a rua, no caso de Oskar, de um jeito 'hoje'. Stella veste mulheres cuja carreira e família são totalmente compatíveis com sex appeal. É a sua imagem e semelhança, apoiada em clássicos revisitados da alfaiataria e na vida flower power (pense maxitricôs) que ela levou com os pais no melhor estilo Mull of Kintyre. Oskar Metsavaht dá finesse para o streetwear. Moletom-couture, num exagero de poesia, parece, no fim das contas, uma solução para os desencanados tempos modernos. É um jeito de se vestir sem se sentir 'se arrumando'.

O que faz deles '21' é a postura verde diante da criação. Se consumo consciente para os consumidores significa gastar muito menos, para os estilistas é justamente buscar alternativas para "compras zero-culpa": matéria-prima orgância e vegetal, processos não-poluentes, energia eólica, reciclagem. Quanto mais responsável o consumidor, mais exigências se faz: não ao trabalho escravo, remuneração decente ao empregados, condições humanas de trabalho. Paga-se feliz pelo jogo limpo por trás da etiqueta – e não mais pela etiqueta pura e simples. O status, no futuro, será outro.

Mas ser verde é apenas um o jeitos de ser relevante agora.

Os estilistas respondem de maneiras diferentes aos cutucões desse começo de novos tempos. Na temporada de Nova York (inverno 2009/10), a resposta vem como um déjà vu. Há mais do mesmo, milimetrica e confortavelmente no lugar: a cintura, o preto, o cabelo. Há um replay unânime dos anos 1980, com meia-arrastão, assimetrias/geometrias, pink/laranja ácidos, penteados pós-punk/new wave, botas altas, short e meia-calça, perfecto, óculos-máscara.

Presos entre o crash da economia americana e a necessidade de fazer algo vendável, os estilistas de lá parecem ter respondido com o exagero oitentista que o país experimentou depois de superar a crise do petróleo, de 1973 (economistas declaram que a situação de hoje é, afinal, um replay desses piores tempos para eles).

Marc Jacobs, que fez um dos melhores desfiles da sua carreira na estação passada, deu uma aula de história club dos 1980. E explicou para o NYT que não sabia o que fazer diante da crise a não ser voltar a um tempo em que as mulheres tinham prazer em se arrumar, com A maiúsculo. O problema é que Jacobs é mestre em ser atual. História, para ele, é só um componente da criação. Não o todo. Como show, não palpitou (embora as roupas, separadas, tenham sempre apelo no showroom). Foi como entrar no acervo da mãe e brincar de dress up com as amigas.

Essa resposta é condenável? É difícil de dizer. Jacobs quer se divertir, quer que as garotas se divirtam – como já se divertiram no passado. Mas as coisas já não são como eram antes, como diria Marvin Gaye, e até Oscar de la Renta e sua clientela acima de qualquer dilema bancário sabem disso.

Como as coisas serão é que são elas. Se eu soubesse, não estaria aqui. Estaria na vanguarda da moda.

E se mais do mesmo é que veremos por um bom tempo, em breve vamos zerar os 1980s e revisitar os 1990. Vou sair já em busca da minha camiseta branca perfeita (de algodão orgânico) e de jeans ideal (tingido com índigo real, feito no tear do século 19 e sem poluir o ambiente). Nada será tão século 21. Pelo menos até o século 21 de fato chegar.

3 comentários:

Luigi Torre disse...

Adorei esse post!!! De verdade! É mesmo meio complicado pensar essa questão do novo, ou então do eterno mais do mesmo. Chega até dar um medinho quando o panorama não é nada animador, né?

E sobre os anos 90, acho que essa volta já está meio acontecendo desde o anos passado... Não de forma muito pesada na moda, mas na música e em outros segmentos já dá para ver bem uma cultura bem 90's tomando conta. Até escrevi um texto sobre isso nosso blog. Quando puder dá uma olhada lá (http://www.aboutfashion.com.br/2008/05/19/um-eterno-anos-90/)

Beijos!

Vica disse...

Guria, tudo esse teu texto. E estou louca que revistem os anos 90, porque chega de 80's, please!! Eu não gostava da moda nem lá (nos anos 80), muito menos agora (pleno século 21).

Mariana Coelho disse...

a-m-e-i o texto sissi!mt mesmo!
bjbj