quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Alexander, o grande

Todos ficamos chocados _ há poucas coisas tão perturbadoras para o ser humano quanto o suicídio.

Mas Alexander McQueen _ um dos raros e talvez o último dos românticos na moda _ parece ter escolhido um ponto final eloquente para sua trajetória e visão de mundo. Uma espécie de Werther do século 21. Há um senso de fatalidade em ser romântico porque os românticos não procuram refúgio do presente. Há um senso de fatalidade na moda de McQueen. Há fatalidade na sua morte.

Como todo herói romântico, McQueen tinha um desconforto com o hoje. A vida não é fácil, o mundo não é bonito, o pacote não é para polianas.

Um jeito de (não) lidar com a realidade é responder à moda Dior, New Look - escapar para um planeta particular onde tudo é belo e não há dramas, se refugiar num lugar fictício e feliz onde só existe beleza e beleza doce, gentil e feminina.

É uma das funções da moda, aliás, já bem notada por Charles Baudelaire, um dos primeiros a creditar função cultural às roupas e não perdoar nostalgia em ninguém. Roupas não só têm de falar do hoje, mas "a moda deve ser considerada, pois, como um sintoma do gosto pelo ideal que flutua no cérebro humano acima de tudo o que a vida natural nele acumula de grosseiro, terrestre e imundo, como uma deformação sublime da natureza, ou melhor, como tentativa permanente e sucessiva de correção da natureza."

Escapar, na moda (e na vida?), não é necessariamente pior nem mais covarde. É humano acreditar que no passado ou numa terra distante tudo é melhor.

McQueen experimentou esses escapes (Japão - quimono, Brasil - cores, Rússia - czares, anos 50 - loiras gélidas de Hitchcock). O verão 2007, por exemplo, é um revival da Inglaterra edwardiana. Mas, quando se coloca McQueen entre os grandes de hoje (MJ, Galliano), foram poucas as viagens no tempo, a cara fin de siècle do fim do século 20, começo do 21.

Em grande parte das coleções, McQueen não teve medo do feio, do grotesco, do perturbador. Seus desfiles-espetáculo deixavam isso claro, dos temas sombrios (bruxas de Salém, estupro, carrosel macabro, hospícios, a dança interminável do desfile inspirado no filme They Shoot Horses, Don't They?, de Sydney Pollack, sobre a era da depressão na América Roosevelt) aos jogos de cena que transformaram sua passarela num dos programas mais concorridos para a plateia da moda.

A resposta _ muitas vezes descrita como "agressiva", "punk", "iconoclasta", "anticonformista" _ vinha em forma de couro-fetiche, a alfaiataria aprendida em Savile Row (que produziu os melhores tailleurs desde a era de ouro da dupla), a influência dos uniformes militares, o preto. Era a beleza extraída direto do drama e do pessimismo ou, como diz Baudelaire, o seu jeito de corrigir as deformações da natureza.

Como todo bom romântico, McQueen tinha também esperança _ e os vestidos de chiffon, a silhueta ampulheta, a renda, o maxibalonê, o bordado, as estampas, os pássaros, as plumas atestam um otimismo. Não a esperança dos tolos, mas aquela que espera, no fundo, ser desiludida no fim. Era o seu lado mais complexo e mais poético, capaz de produzir cenas memoráveis, como a projeção holográfica de Kate Moss no fim do inverno 2006 (a mesma dos tartãs, uma referência a suas origens escocesas).

Todos esse elementos apareceram nas coleções de McQueen nos seus 15 anos de carreira, desde a formatura no Central St. Martins, 100% comprada pela editora Isabella Blow (sua musa para o verão 2008).

Fiel a seu vocabulário, sem compactuar com nada, McQueen deu uma aula sobre o que é ser um estilista. As características da sua moda (o preto, os vestido, etc, etc...) (a)pareceram sempre novos a cada coleção. Às vezes mais, às vezes menos, McQueen soube usá-lo a cada temporada para reescrever histórias diferentes. Nos últimos cinco anos, de forma infinitamente mais sofisticada do que no começo dos anos 2000.

A beleza é que McQueen, de fato, não se conformou. Não comprometeu sua visão de mundo e sua maneira de representá-la em forma de roupa em nome das tendências ou do mercado (não custa lembrar que, em 15 anos de carreira, só no último ano e meio a marca saiu do vermelho para o azul). Como um genuíno romântico, há uma melancolia quase cínica _ que nada mais é do que um wake up call _ nas suas coleções. O inverno 2009, uma espécie de Dior cruza Chanel, McQueen traduz em roupas impecáveis e altamente desejáveis para qualquer closet em sintonia com o hoje o desencanto com uma moda que só faz insistir na reprodução dos best sellers do século 20. Qual o novo caminho?

Na última coleção, o verão 2010, apresentado em 6 de outubro de 2009, em Paris, McQueen volta ao assunto da ação deletéria do homem e da industrialização sobre a natureza, explorado no verão anterior. Desta vez, McQueen mostra que voltaremos do cataclisma como habitantes de uma espécie de Atlântida, meio humanos, meio répteis. As formas eram arredondadas como as de peixe, os minivestidos foram estampados digitalmente e o plano era o de exibir o desfile pela internet ao vivo _ abortado por excesso de audiência causado pelo twitter de Lady Gaga, que convidou os mais de 1 milhão de seguidores a assistir a première do seu single na passarela. Era a tecnologia a serviço da moda _ e do homem _ jamais, como bom romântico, o contrário. A última coleção de um estilista inconformado e ao mesmo comprometido com o presente.

Por fim, uma das explicações sobre a motivação para o inverno 2008. Romantismo puro:

"Tenho um olmo de 600 anos no meu jardim e então inventei a história de uma menina que vive dentro dele e sai da escuridão para encontrar um príncipe e virar uma rainha", disse.

No twitter, no domingo 7, McQueen resumiu em 140 caracteres que precisava se recompor (sunday evening been a f****** awful week but my friends have been great but now i have to some how pull myself together...).

Românticos não pretendem conseguir.

(eu gostaria muito de saber que cara tem o inverno 2010, que seria desfilado em duas semanas. e acho justo que a marca pare de existir)

O que fica é o pedido para que a moda e o mundo se conectem com o presente e sejam mais humanos. Meus favoritos:


Alexander McQueen na última aparição na passarela, verão 2010



Resort 2010: vestido de renda com silhueta ampulheta é uma especialidade da casa



Resort 2010: nas pré-coleções, McQueen atinge o ponto perfeito entre seu desejo de moda e a exigência comercial. O cotidiano, com McQueen, nunca é banal



Inverno 2009: a desilusão com a moda atual, que se esconde nos best sellers de outros tempos em busca de sucesso de vendas, mas precisa se libertar em busca de outros caminhos



Verão 2009: coleção animal, com um McQueen otimista-cínico em grand finale



Inverno 2008: uma viagem étnica e czarista



Verão 2008: quimono ombré na homenagem à Isabella Blow



Verão 2007: superbalonê e transparência velada da coleção edwardiana



Inverno 2006: projeção holográfica de Kate Moss é um dos marcos da tecnologia digital a favor do desfile-espetáculo



Verão 2006: camiseta-panfleto em apoio à amiga Kate Moss, capa de revistas sensacionalistas cheirando cocaína



Inverno 2005: musas de Hitchcock



Inverno 2004: alfaiataria inconformada com as regras



Verão 2004: dance até cair, uma das apresentações mais melancólicas e poéticas, inspirada no filme de Pollack



Inverno 2003: viagem nômade a um espaço desolador



Verão 2003: as araras brasileiras



Inverno 2003: alfaiataria e renda, os dois lados da personalidade de McQueen



Verão 2001: pássaros, um tema recorrente para quem conhece e quer escapar da loucura do cotidiano

6 comentários:

Fê Resende disse...

si, essa morte me tocou de um jeito diferente. amei a sua visão, o paralelo traçado entre a moda e a personalidade, a sensação de que mais gente compreendeu. bonito recorte, maravilhosa escolha de imagens.

Cin disse...

Parabéns pelo texto cheio de emoção com uma abordagem única de um artista sem igual.

Beijos e obrigada!

Anônimo disse...

Bela homenagem. O texto, como sempre, excelente.Parabéns!
Vera (de Brasília).

madri disse...

si,
adorei seu texto, seu ponto de vista e todas as imagens que escolheu! tomei a liberdade de repassar para alguns amigos o link do blog para poderem ler!
bjo
mari braidatto

Marília disse...

Simone, fantástico texto. Emocionei. Realmente o mundo é duro e ainda mais para românticos, sensíveis e artistas. Parece que a marca vai prosseguir... uma forma de "homenagem" segundo a PPR. ...
os looks que vc escolheu são demais tb. Parabéns. Bjo!

Anônimo disse...

Putz! Por mais fã que eu seja desse cara, me decepcionei, e foi muito, com essa decisão aí de se matar! Triste e péssimo exemplo!