segunda-feira, 15 de março de 2010

FASHION GURU Oliver Zahm, da Purple

O Style.com vem publicando uma série de entrevistas sobre o futuro da moda. Selecionei (e traduzi) aqui as pérolas roxas de Oliver Zahm.

"O amor de Olivier Zahm pelas mulheres é sabido, notório e documentado pelo próprio. Mas este francês, editor e fundador da revista independente, bianual, Purple Fashion, tem muitas outras paixões: arte, moda, seu uniforme diário de jeans branco (ou cinza) + jaqueta de couro Yves Saint Laurent, festas, liberdade.

Talvez haja um elemento de auto-promoção por trás de tudo isso, mas num mundo cada vez mais conformista, Zahm oferece uma voz astuta, original e divertida. Durante nossa conversa, feita por telefone no mês passado entre NY e Paris e de alguma forma resumida aqui, ele discutiu sua convicção de que revistas existirão enquanto a moda existir, a sua suspeita de que a crise econômica tenha sido só um jeito de amedontrar as pessoas e seu desejo ardente de que o mundo em geral _ e Lindsay Lohan em particular _ parem de gastar tanto dinheiro em roupas.

Por Dirk Standen

Qual foi o impulso por trás do Purple Diary?
Foi meio por acidente, porque Purple Diary era apenas uma seção de um projeto maior. Comecei a tirar fotos diariamente de festas e imagens da minha vida, então precisava de um jeito interessante de usar essas fotos sem deixá-las em arquivos digitais para desaparecerem. Porque agora tudo desaparece. É digital e se você não copia no HD, as imagens desaparecem depois de um ou dois anos. Então, tive essa ideia de fazer um diário pessoal, íntimo, misturando privacidade com minha vida pública e criando uma espécie de contraste e coexistência entre o que é realmente pessoal, como sexo e amor, e o que é realmente público _ uma festa, um desfile, uma exposição. Ficou interessante porque quebrar essas barreiras é justamente o que a internet faz. Para as celebridades, é um pesadelo, mas para mim é um prazer. É uma opção. Adoraria ir mais fundo na intimidade, mas minha namorada e minhas amantes ficam relutantes.

As reações ao blog surpreenderam você?
O que me surpreendeu foi a quantidade de gente. Imprimo 60 mil cópias da Purple por estação e tenho 100 mil visitantes semanais no blog - portanto mais visitantes por semana na internet do que por edição da revista. Pelas discussões, posso ver que as pessoas sabem onde estive, o que fiz, se vi esse filme ou aquela exposição e isso tem mudado a minha vida, a forma como eu interajo com as garotas, com os amigos. Só não mudou a forma como eu interajo com os anunciantes (risos).

Vamos falar sobre isso.
Bem, não encontrei o jeito certo de fazer um dinheirinho do blog porque não estou interessado em anunciantes regulares. Acho que isso seria péssimo. Então, nao quero nenhum tipo de anúncio. Estou buscando um jeito de envolver as marcas, mas ainda não encontrei e isso não é minha prioridade.

Você diz que gostaria de ir mais fundo na intimidade?
É delicado porque respeitos as garotas ao meu redor. Elas são de carne e osso e eu respeito a privacidade delas, portanto não posso ir muito longe. Mas as vezes é divertido e elas encaram a ideia. Às vezes, estão emocionalmente envolvidas e fica mais difícil - e eu compreendo. Para mim, sexo e amor são as coisas mais bonitas da vida. Mais bonitas do que uma paisagem - então, eu adoro tirar fotos das garotas nesses momentos privés porque elas estão oferecendo o lado mais bonito delas. É um presente de deus. Não sou new age, não sou místico, apenas amo essa beleza e capturá-la com uma câmera para dividi-la. E Purple é um estilo de vida. Com a minha revista, o que quero é ser mais livre e quero que as pessoas sejam mais livres, abertas às possibilidades de contato, amor, sexo. Purple é um estilo livre, não de um jeito babaca, infantil, imaturo - até porque agora eu tenho 45, 46. O blog também tem essa vocação. Se minha vida fosse perfeita, ela seria como o Purple Diary. É uma ilusão também. Estou cosntruindo um personagem.


Você já disse que a internet não é um meio criativo.
Para a moda, não é. Para a moda, o meio criativo é a revista, onde a fotografia não mostra apenas as últimas coleções e as roupas e sim jeitos de usá-las. Elas capturam um espírito, um certo momento no tempo - e isso é criatividade na moda. É uma maneira de encarnar e interpretar a moda. Na internet, não vejo isso - mas talvez eu esteja errado. Televosão não é um meio para a moda de jeito nenhum. Aliás, não acho que a tv seja meio para alguma coisa a não ser para controlat a população e fazê-la mais estúpida. Definitivamente a internet é um meio para a interação, para o contato. Não para a criatividade.

Então, você não vê a internet desbancando as revistas?
As revistas comerciais serão substituídas, porque a internet é um lugar melhor para o comércio e para a informação imediata. A internet é a oportunidade para as revistas porque as força a ser mais criativas e explorar a sua real essência e a sua razão de ser. E a razão de ser não é o comércio. Revistas também existem para educar, pela energia, pelo voyerismo, pela sensualdiade, pelo prazer, por muitas razões. Não apenas para vender produtos. Essa é a razão pela qual agora no Japão nào há boas revistas de moda. É um desastre porque eles apenas consideram as revistas uma extensão da publicidade. Esse tipo de revista, estritamente comercial, vai morrer porque há mais contato, informação e possibilidade de compra pela internet. Mas uma revista realmente criativa não pode ser substituída porque um site realmente criativo não existe e não existirá. Ninguém quer olhar um editorial na tela, ou você quer?

Bem, ninguém conseguiu fazer um bom trabalho ainda.
É muito difícil. Talvez alguém muito criativo consiga um resultado divertido, surpreendente. Talvez em breve vejamos um site de arte ou moda que possa mudar o estado das coisas. Eles precisam do formato da tv, algo que se mova? Não sei, é complicado. Pra mim, o futuro das revistas equivale ao futuro da moda. Se a moda desaparece, as revistas desaparecem. Enquanto a moda tiver algo para dizer e for um sonho imaginado por gente louca como John Galliano e Sonia Rykiel, teremos revistas. Faremos as melhores revistas possíveis, porque elas existem para celebrar essas mentes. Os designers são a verdadeira inspiração para as revistas de moda - os artistas, os arquitetos, os diretores de cinema, enfim. Enquanto houver arte e moda, revistas serão boas.

Desfiles, ao vivo, ainda importam? Qual a distância entre Nick Knight filmar o desfile de Alexander McQueen para uma apresentação sem público?
Para mim, a internet é só uma extensão da realidade. Não pode substitui-la. O desfile é uma cerimônia, uma cerimônia religiosa atentida por crentes de verdade. Você não vai a uma apresentação da Comme des Garçons se não acredita na Comme des Garçons. Se você não acreidta, vai a um jogo de basebal? Precisamos da cerimônia, precisamos que elas se superem, precisamos de testemunhas. A internet é apenas um jeito de ampliar a audiência e abrir a cerimônia para mais pessoas. Não vejo competição. Introduzir a internet num desfile, como Knight fez com McQueen, é também transformar o formato de um desfile. Usar a tecnologia é o futuro dos desfiles. Mas isso não quer dizer que eles vão acabar, certo?

Há muitos desfiles agora? Se você é a favor da liberdade, todos têm o direito de desfilar?
Sim, mas você só vai aonde quer ir. Ou só vai aonde não é convidado. O desfile é um momento muito importante, 5 ou 10 minutos de pura moda, livre de tudo, livre do comércio. É preciso preservar esse momento, o conceito psicológico do potlatch, onde se gasta dinheiro apenas pelos fogos de artifício. Celebramos e apenas celebramos e gastamos porque amamos a moda. Temos de ir aos desfiles com isso em mente, com esse espírito.

As pressões comerciais sobre os estilistas são muito fortes agora? Eles estão fazendo 8 ou mais coleções por ano. É possível ser criativo nessas circunstâncias?
É verdade e um grande problema. Não sei como aguentam a pressão. É hardcore. É preciso ter um bom time, ser respeitado e protegido isso. Pelos meus amigos vejo como é difícil suportar e vejo que eles não sabem exatamente como reagir. Eles não podem dar uma de Monsieur Saint Laurent e dizer "oh, desculpe, estou doente, tomei muitas drogas e não posso finalizar a coleção, vou para Marrakech". Bons tempos (risos). Eles seriam despedidos imediatamente.

Como você explica Karl Lagerfeld?
Eles tem um ótimo time e sabe guiá-los na mesma direção. E ele e muito rápido para encontrar ideias. Não perde um dia, uma hora, um minuto. é excepcional. Ele encontra ideias tão rápido porque é uma enciclopédia; sua mente é uma enciclopédia. Ele abre um livro dentro da cabeça e, toc toc toc, esse capítulo para esse ideia, boom boom, e aí ele põe tudo para funcionar numa mesma direção. E tudo é articulado e claramente organizado dentro do seu cérebro. Ele não se confunde nem tem ideias demais. Sua cabeça é clara e estruturada. Ele é uma enciclopédia viva. É mais rápido do que a internet, do que o google.


A fast fashion afetou o luxo?
Nào vejo um problema. É parte do jogo. O sistema da moda é uma grande máquina copiadora. Copiao passado, as tribos, os trabalhadores... Não acho isso negativo. Até Martin margiela tem uma linha qe é feita exatamente para reproduzir suas próprias roupas. Essa é a essência da moda. Como copiar? Esse é o problema: como você copia, o que você copia e como mistura diferentes cópias. Todas as roupas já foram feitas. Elas apenas são refeitas, refeitas, refeitas.

A situação econômica foi apenas um momento ou mudou tudo?
para mim, 2010 é um novo começo. Esotu muito otismista. Todo mundo está se fiando na crise econômica, mas para mim a real motivação da moda é o desejo. Este é um período para a gente seguir em frente ou é um período deprê no sentido psicológico? Para mim, está tudo aberto. É uma década nova, isso me anima. Temos mais alguns anos pela frente, vamos viver. Temos sorte de viver num mundo privilegiado. Crise econômica é só uma intoxicação em massa. Somos ricos, inteligentes, bonitos - então, qual o problema? A crise foi só um jeito de amedrontar e fazer as pessoas trabalharem mais. Não existe crise. Sempre foi difícil conseguir dinheiro e sempre será - especialmente quando você quer ser livre e fazer o que quer, ir aonde quer ir. E se o sistema bancário vai entrar em colapso, eu vou continuar a fazer a minha revista.

Falando sobre a sobrevivência da revista, eu acho que o jeito como você se veste é uma decisão conciente de se transformar em grife para aumentar a visibilidade da Purple.
Usar o mesmo uniforme todo dia é um jeito bacana de evitar despesar extras em tempos difíceis (risos). Coloquei Lindsay Lohan na capa da Purple, mas não concordo com a obsesão dela de comprar, comprar, comprar todo dia o máximo de roupas. Faço uma revista de moda - e sei que estou sendo gravado - mas eu amo todas as pessoas que amam moda a ponto de comprarem o mínimo de moda, apenas o que eles desejam muito, e que amam moda a ponto de lavarem corretamente as roupas (risos). Qual era mesmo a pergunta? Ah, sim, hoje moda é celebridade, então você tem que se glamourizar se quer ser levado a sério num mundo superficial. É preciso parecer glamouroso para que as pessoas acreditem que você faz parte do jogo. Antes eu achava que para fazer parte era preciso ser invisível. Mas isso foram os anos 90, com o sistema anti-star, anti-fashion, anti-grifes. Eu fui como Martin margiela e Helmut Lang, mas em 2001 eu mudei completamente. O que foi relevante nos 90 não é mais. E, em 2010, tudo mudou de novo. Não basta ser celebridade. Ninguém liga. É preciso seguir em frente."

Um comentário:

Tati Marussig disse...

Oi, td bem ? te vi no filme da caixa homenagem às mulheres. Qto tempo? Acompanho suas matérias...Parabéns!
Comentei seu nome do meu singelo blog.
bjs e sucesso