domingo, 14 de setembro de 2008

A TEORIA do back to basics

Outro dia eu estava conversando com meu maridinho over uma xícara de porcelana chinesa de café forte - daqueles bem pretos. Ele sempre reclama das roupas masculinas, como é difícil encontrar algo que não tenha as formas ditadas pela, como ele diz em cacófato, estética gay. Por isso ele quer dizer tudo justo, modelagem feita como vitrine de músculos e tal. Não é uma implicância com o gênero gay, mas um desconforto pela falta de opção. O que ele veste se não quer vitrinar os músculos?

Mostrei para ele as idéias de Véronique Nichanian para o masculino da Hermès. Há algum tempo a moça tem insistido que é possível ser chic&criativo apostando nos clássicos. Sem ser conservador, careta, entediante. O verão 2009, por exemplo, se faz numa sucessão de combinações de cores frias. Basicamente os mais variados tons de cinza (ocre, azul, asfalto, esverdeado, chumbo) misturados com bege, azul apagado, um ou outro verde-água e acesos por um lenço com o indefectível laranja-Hermès amarrado no pescoço. É tudo muito simples, bem cortado e a beleza mora justamente na alfaiataria fina e na mistura pouco óbvia de cores (ela inclusive quebra a regra de que a gravata deve sempre ser mais escura do que a camisa, desobediência modal pura, com efeito de classe. é para poucos, mas quando alguém rompe com sucesso uma desses dogmas do bem-vestir me dá um alívio, uma sensação boa demais de anticonformismo para o melhor da humanidade).

Não sou expert em moda masculina. Tenho gosto, é claro, sei ver se é bacana ou não. Mas isso é empírico, não reflete conhecimento de causa. Para falar a verdade, nunca tinha me dado ao trabalho sequer de olhar os desfiles do sexo oposto. Minha perspectiva é sempre cor-de-rosa, do sexo que impulsiona a moda. Minha tendência era acreditar que a moda masculina era uma contradição em termos, um vazio de notícias, uma sucessão de blás que nada tinha para oferecer ao guarda-roupa feminino (a não ser as pecas que a gente 'rouba' feliz para dar uma sacudida na ditadura da visão mulher = vestido + babado + flor + seda).

Mas nessa estacão alguma coisa aconteceu. O masculino de repente tinha alguma coisa a me ensinar, ou a me oferecer, além de um belo paletó risca-de-giz para eu usar com jeans flare de dia e sobre vestido de renda à noite. Um pouco cansada da piração, da fantasia, que é a moda feminina - às vezes o fetiche de uma peça (ah, eu quero ter, ai, que lindo, você sabe...) consegue ter mais valor do que a peça em si - percebi que a moda masculina me (nos) faz o favor imenso de nos lembrar que moda é, antes de tudo, roupa. E que não dá para perder a perspectiva da qualidade, do que é bom, bonito e útil.

Essa sensação vem justo no momento em que as passarelas lá fora refletem a recessão econômica no hermisfério norte. O que uma coisa tem a ver com outra é bem simples: se a economia vai mal, designers tendem a propor estilos mais atemporais. A realidade os faz focar - em pecas que façam as mulheres gastar mesmo que o dinheiro seja curto (ternos pretos, um bom pretinho básico..). Mas foco, como disse Alber Elbaz - estilista que, como quem não quer nada, vem ditando cada vez mais o mood da moda -, "a realidade da vida faz você pensar no que é qualidade, em quais roupas tornam a mulher o centro das atenções e não o contrário." Alguém pode levantar que o Brasil tem mais milionários do que Rússia e Índia (nossos parceiros, junto com a China, no BRIC, um acrônimo cunhado pelo economista Jim O' Neill, do grupo Goldman Sachs, para designar as economias emergentes). E quem se importa com a recessão lá fora se nunca se gastou tanto no mercado de luxo aqui dentro (nem no KA ou no frango nosso de cada dia)? Bom, da última vez que chequei ainda é a moda de fora que manda as tendências para nos vestir. E se lá fora a coisa está preta, literalmente falando, pode contar que isso vai ser expresso nos pretinhos básicos por aqui.

Ademais, não acho nada mal a gente voltar para os básicos. Revisados, sem dúvida, com novas formas, comprimentos, volumes. Também não acho nada mal voltarmos para o pensamento básico: a roupa é boa, tem bom corte, bom tecido, bom custo-benefício? Mas não acho que a gente consiga pensar com essa cabeça masculina o tempo todo, graças aos deuses. Nessas horas, Elbaz mostra porque tem entendido como ninguém os tempos atuais e expressado isso num luxo, por falta de palavra melhor, moderno. O estilista da Lanvin tem passado o passado a limpo com roupas que ele detesta chamar de 'clássicas" - porque o termo parece resumir algo que envelheceu e ficou feio - mas que, também por falta de palavra melhor, são de fato clássicas. Não tem 'invencionice'. Só beleza, criatividade, corte e costura. E um jeito feminino de escapar da realidade: bijoux gigantes, sempre, desde que que ele estreou na Lanvin na virada do milênio.

É exatamente como o café do começo desse texto. O pretinho é forte e cheio de personalidade e pode ser tomado (usado) uma vida que não cansa nem envelhece. Mas o que dá o sabor - e, no caso da moda, a sensação de novidade – é a xícara de porcelana chinesa que embala (decora) tudo. Exatamente como o colar déco sobre o look total black Lanvin.


Lanvin, inverno 2008

3 comentários:

Fê Resende disse...

sensacional texto, simone. sou ainda mais sua fã, juro. =)

luzinha disse...

simone, citei seu texto no meu blog! depois dá uma passadinha e vê! http://thedresslooksniceonyou.wordpress.com/

Luciene Vieira disse...

Uau, que texto: corte exato, bem costurado - um clássico!