domingo, 2 de novembro de 2008

A TEORIA da compra sustentável +

receita de beleza na prática no fim deste post!


O texto do NYT sobre esse novo termo da moda conclui que recessionista – o fashionista em tempos de recessão – nada mais é do que uma desculpa para comprar mais do mais barato.

Não sei vocês, mas o ar dos tempos me pegou de outro jeito. Não tenho vontade de comprar baratinho pra comprar mais.

Tenho andado mais depressionista num certo sentido.

Não tenho vontade de ir às compras. É mais assim: não tenho vontade de gastar em algo que daqui a três meses ficará datado com o prefall 2010. Tenho vontade de arrematar uma sandália meia-pata Biba verão 2009 só porque ela é exatamente igual a uma desenhada pelo YSL original, 1970s - época em que ele reeditou os 1940s... Tenho vontade de achar a camiseta branca perfeita, o cashmere cinza mescla ideal...

E vontade de enxugar, enxugar, enxugar meu guarda-roupa a ponto de ele ficar mais sequinho do que Jean Shrimpton!


Jean Shrimpton por David Bailey, NY, 1962: charme e frescor com clássicos à prova do tempo (NY JS DB 62, da admirável editora, a Steidl)


Sexta, numa conversa com minha amiga Même, ela também se mostrou desanimada com o megasupérfluo. Não quer mais ser uma pessoa cheia de bolsas e sapatos - e só.

E no dia anterior, numa conversa ótima sobre o mercado com uma empresária de moda da nova geração, ela me disse que trabalhar com moda cansa o olhar - a gente acha tudo velho antes de a temporada se concretizar. Perguntava sobre as idéias mais bacanas do verão que ela iria adotar e ela suspirou 'o verão já era, já estou no inverno'. Estava de vestidinho preto, sandália rasteira com YSL de couro destacado no peito do pé, jaqueta perfecto, maxibolsa de couro. Brinquei que toda vez que a gente se encontrava ela estava de cor neutra, tudo muito básico, sem sobreposição, sem mistério (no bom sentido), tudo muito tranqüilinho e isso só acentuava meu lado (rocco) barroooooco. Mas ela tem coisas antiquésimas no armário, um armário que facilmente poderia engordar, engordar, engordar.

Rita, a estilista, desbafou no telefone comigo que está deprê com esse consumismo todo - parece uma praga de gafanhotos famintos só que soltos nas araras das lojas. Última das românticas, artistinha de alma e de família, ela não vê mais sentido em gastar viscoelastano para fazer MAIS UMA camiseta. Acha que a moda morreu - o que vai substituir a frase de Max Ernst ("Art is dead. Long live fashion") se fashion is dead? Long live marketing?!?

Ela quer reciclar tudo. Eu também - principalmente o jeito de usar as coisas que já temos. No Prêmio Moda, uma das mais bem vestidas era minha amiga joalheira, de saia-lápis e outra saia usada como top tomara-que-caia. Gloria Kalil usou um Lita Mortari antigo. Todo mundo atualiza, claro: Gloria escolheu sandálias pesadas Sergio Rossi, por exemplo.

Something old, something new - e esse novo bem escolhido, bem especial.

E assim caminha a humanidade.

Mas, se você ainda está com a coceirinha gastadora, leia The Thrift Book: Live Well and Spend Less, India Knight (Fig Tree) para usar o cartão de crédito com sabedoria.

India é uma autora de best-sellers em Londres - um deles sobre shopping, já que, como ela mesmo diz como boa filha dos consumistas anos 1980, não sente a menor culpa de ter um zilhão de bolsas. Eu me identifico com o que ela escreveu para o Sunday Times hoje: "It’s not that I can’t earn money, or that I don’t earn enough of it. It’s a complete inability to manage money, full stop — and, to be frank, an inborn lack of interest in doing so. I think I subconsciously saw my financial idiocy as a sign of a rather charmingly bohemian easy-come, easy-go approach to life in general. I know: it’s pathetic."

Ela entendeu que nada mudaria a não ser que ela mudasse o jeito de se relacionar com dinheiro - o que muita gente vai ter de fazer, querendo ou não, mais cedo do que tarde (não é Même?). Aos poucos, depois de virar ecoconsciente, sentiu um certo "nojo" de gastar simplesmente pelo fato de querer algo naquele minuto, fácil assim, vulgo compra por impulso.

Por fim, ela conclui exatamente o que a Rita concluiu no seu apezinho agora nos Jardins: eu vou fazer a minha parte, ainda que seja pequenininha. Parece pouco, mas a Rita está fazendo a parte dela aqui em SP (aguarde post com convite para a próxima idéia da moça), a India em Londres e de ponto em ponto se costura algo, não?

India descobriu a 'compra sustentável'. E dá as dicas, no artigo para o Sunday Times, de como viver bem e com estilo "valuing beauty, in saving money in unexpectedly satisfying ways and in feeling like a useful member of the human race at the same time as enhancing your life in dozens of little but significantly pleasing ways."

Ela recomenda:
* FAÇA COMPRAS ESPERTAS NO SUPERMERCADO: escolha produtos locais, faça compras diárias e leve apenas o necessário para o consumo imediato. Eu acho uma delícia fazer compras diárias, descobrir o que está mais fresco e pautar seu cardápio assim (que é exatamente o que os mestre-cucas fazem). Mas se você detesta mercado ou tem problemas em cuidar do lar (oh-la-la!) o jeito é comprar online para não cair na tentação da bobagem. E é bom também comprar seus produtos favoritos em mercados que não injetam no preço do produto luxos associados à experiência da compra (deixe a experiência da compra ser um item quando você for comprar seu eterno Louboutin, entende?).

* ALIMENTE SUA FAMÍLIA: com receitas caseiras, simples, feitas com produtos frescos. Girrrrls, se vocês assistem Jamie Oliver sabem que há um movimento aí - como diz a Rita, o luxo do futuro é esse tempo para fazer coisas gostosas, com produtos naturais, usar seu iMac no meio de um jardim florido e por aí vai... Bom, no caso das receitas, India diz que se você faz listas de compra semanais, consegue fazer uma refeição para servir, outra para congelar, duas usando sobras e mais e mais... Planejar e usar tudo de maneira inteligente é o lance.

* RECEBA DESPRETENSIOSAMENTE: comidinha daquelas que todo mundo ama, vinho, água - o principal é boa companhia. Não é preciso armar um jantar com ingredientes caros - se você está tentando impressionar os amigos, diz India, talvez seja hora de trocar os amigos.

* PENSE ANTES DE COMPRAR O PRÓXIMO LOOK: Uma etiqueta com poucos números pode ser tentadora, mas se você respirar dois segundos, se pergunte: como é possível algo custar tão pouco? Quanto deve ganhar a pobre alma que fez essa peça? Em que condições ela trabalha? Quando Ronaldo Fraga fez a coleção da China, visitou fábricas de roupas e viu uma linha de produção em que as mulheres ficavam sentadas em penicos - para evitar que tempo de trabalho fosse desperdiçado com uma ida ao banheiro (para mais histórias 'otimistas' sobre a China, leia Deluxe, de Dana Thomas). Não é preciso ir tão longe: como trabalham os bolivianos (ilegais) nas confecções de coreanos no Bom Retiro? Talvez em breve os fabricantes de roupas sejam obrigados a colocar uma etiqueta com informações sobre a peça, algo equivalente ao "nutrition facts" que os fabricantes de comida colocam em suas embalagens. Talvez eles tenham que dizer coisas como faz a indústria da beleza "não testado em animais": "nenhuma mão-de-obra infantil foi utilizada na fabricação desse tênis" e por aí afora...


* BELEZA ROUBADA: essa é de total responsa de India (eu não testei nem perguntei a minha dermato). Máscara de aspirina, uma receita que ela encontrou no makeupalley.com, um site de "street smart beauty"(!). Segundo ela, aspirina contém ácido salicílico (beta-hidroxiácido), componente principal de esfoliantes e cremes carérrimos. Receitinha: esmague seis aspirinas com uma olher. Misture com água para fazer uma pasta e aplique a mistura no rosto. Deixe agir por 10 minutos. Enxágüe, massageando. Use uma vez por semana - duas em caso de emergência.


Portrait (Miss N.) de Gertrude Kasebier (1852-1934): e se a pele ficar linda assim depois de tentar a máscara caseira de aspirina?

7 comentários:

Jorge disse...

Acho que as coisas pioram, em certo sentido, qndo a gente trabalha com moda pq além de tudo o look vai ser nosso maior cartão de visita.

Devo confessar que estou comprando mais do que nunca, na verdade, mas estou comprando mais pq estou querendo peças que eu olho e acho "que bacana" diferente do "preciso de uma blusa assim assado pq saiu na Vogue Paris".

Mas talvez a moda masculina seja mais fácil de se lidar porque menos "falada-escrutinada-esmiuçada" do que a feminina - as coisas não ficam tão velhas tão rápido aos nossos olhinhos ávidos. Sim, não, talvez?

andreza felix disse...

nossa o post que eu mais me identifiquei ever!
depois de me enrolar nas finanças por gastanças tive meu momento Oprah (americas's debt diet)e tive que por no papel os estragos.
isso me fez querer:
1- esvaziar o guarda-roupa
2- nao ter desejos de coisas de verao, fall, inverno , cruise ou wathever..
3- comer mais comida feita por mim
4- ter menos cosméticos (por que uso mesmo poucos)

pra mim, a crise (que chegou bem antes na minha vida) foi mega benéfica.

tou fora do frenesi. Acho que feminilidade é bem outra coisa!


arrasando sempre sissi.

mariana coelho disse...

me identifiquei demaaaisss!
desde que me enrolei toooda com meu cartão de crédito que a situação chegou no limite,eu realmente de uns tempos p cá só quero enxugar meu guarda roupa, quase todo dia quando vou me vestir tiro alguma coisa do armário q está sobrando(a maioria compra de impulso q está ali só ocupando espaço,sem nunca ser usada).
e isso do olhar cansado de quem trabalha com moda é a mais pura verdade,tem 1 ano mais ou menos que já to assim..
engraçado, eu não to nessa de comprar baratinho e mt..pelo contrário, toda vez q me livro de mais uma camiseta penso"mas pq tenho tanta camiseta estampada da zara9q ja estão quase todas surradas),tanta bolsa de lona...quando, todo o dinheiro que foi gasto nisso, somado, compraria pelo menos uma bolsa clássica e mt boa q hj choramingo por não ter.."
é..vivendo e aprendendo.rs
bjbj

Sissi disse...

queridos, olha, já escrevi aqui que homem nos ensina o back to basics - pelo menos o homem pós-luis 14! ririri. mas adorei que a grana está no ar - ainda que também no bolso - pra vcs todos. e influenciando o jeito como se compra - a qualidade + a consciência. beijos

vodca barata disse...

esmanhoto, eu amei esse post!

e vale dizer que eu estava bêbada mas eu me lembro que te disse que teu blog era o melhor e eu meant it!!!

beijo enorme
ivi (na rehab)

Anônimo disse...

Sou coreana e dona de uma confeccao feminina no Bom Retiro .
Naum trabalho com oficinas de bolivianos ,simplesmente pela falta de confianca que tenho nelas.
Com ou sem CNPJ , muitas contratam patricios q vivem ilegalmente aki no Brasil ;e ainda por cima em condicoes lamentaveis , quase que uma semi-escravidao .
Apesar de irmos conhecer o local de servico antes do ato da contratacao , muitos detalhes sao escondidos e disfarcados de nos .
Gostaria que a sociedade brasileira revessem os seus conceitos em relacao as confeccoes coreanas e olhassem com mais atencao pois nem sempre somos os viloes .

Sissi disse...

Olá, que bom que você deixou esse comentário aqui. É injusto, de fato, colocar todos os confeccionistas no mesmo pacote. A experiência de certos negócios entre coreanos e bolivianos passou a valer como prática de todos, viru um estereótipo. Nem todos são mocinhos, nem todos são vilões - e isso vale para toda a cadeira produtiva, de qualquer nacionalidade. Meu email está aí do lado. Por favor, entre em contato. obrigada, Simone