quarta-feira, 22 de outubro de 2008

AQUI TEM bracelete à Verdura


Braceletes Cruz de Malta de esmalte e pedras, Fulco di Verdura para Chanel, 1937.



Bracelete de turquesa e banhado a ouro, José & Maria Barreras, 640 dólares (Neiman Marcus).



Bracelete de prata, mosaico de madrepérolas, druza e quartzo fumê, Camila Sarpi para Isabella Giobbi, 1 530 reais.


Deve ser a chegada do calor. Mas joalheiros daqui e de lá estão pondo as manguinhas de fora e criando os braceletes mais desejáveis de muitas temporadas: vistosos, presentes, definitivos e definidores dos looks, de metal e pedras.

Tem a ver com o retorno do déco, da déco e do decoro no look. Se você puder colocar os olhos nas memórias de Fulco Santostefano della Cerda, Duque of Verdura - The Happy Summer Days - o mundo todo vai fazer sentido.

Ditada em 1976, as memórias deixam claro como a infância passada sob o sol da Sicília moldou o gosto de Fulco di Verdura, parceiro (criativo) de Coco Chanel a partir de 1927.

(Alugue "O Leopardo", baseado no livro de Giuseppe di Lampedusa, primo de Verdura, para entender o cenário e a família aristocrática e excêntrica de ambos.)

Pedras grandes, o barroco, paixão pelo ouro, gosto pela natureza, o sofisticado de braços dados com o primitivo - tudo isso fazia parte do repertório desse joalheiro por acaso, nascido em Palermo, 1898.

Nada no seu estilo combinava com a moda da 'jóia branca' - platina + diamantes - da época.

Foi o que bastou para Chanel cair de amores pelo seu desenho. Chanel, é sabidíssimo, não acreditava no valor de commodity da jóia. Dizia que, se era para ostentar o poder de compra, melhor logo usar um cheque pendurado no pescoço.

As peças de Verdura eram a anticommodity. Fauna, flora, materiais pouco usados (Verdura se orgulhava de dizer que tinha poder de transformar uma conchinha banal em pedra preciosa) eram colocados juntos segundo um conhecimento enciclopédico de história da arte.

Sob medida para Chanel, cujas costume jewelry não raro saíam direto de retratos de mulheres pintadas no século 16. Ou antes, do Império Bizantino - fonte principal de inspiração para as peças feitas por Robert Goossens para ela.

O encontro dos dois não é História com h maiúsculo. Há duas versões. A primeira diz que eles se conheceram nos salões do Palazzo Rezzonico, em Veneza, numa festa oferecida por Linda e Cole Porter, 1925. Outra, mais excêntrica e publicada pela New Yorker em 1941, diz que ele torrou o dinheiro da herança numa festa que durou uma semana na Sicília e depois num baile temático de Lady Hamilton. Em seguida, foi para Paris trabalhar com Chanel.

Primeiro, como designer têxtil.

Depois, como joalheiro. Para a clientela da rue Cambon e em benefício próprio: Verdura ficou encarregado de dar cara nova para peças que ela recebeu dos amantes ao longo dos romances.

Em 1935, já estabelecido em Nova York, Verdura criou a peça mais icônica da dupla: o bracelete de esmalte com pedras dispostas na forma da Cruz de Malta. O primeiro exemplar foi feito com a Cruz que Dmitri, o último representante da família Romanov e amante de Chanel, deu a ela.

Há quem diga também que a Cruz de Malta é uma das memórias mais antigas de Chanel, da época em que viveu num orfanato/convento.

Mutas versões do bracelete vieram depois (até dourada), até Verdura abrir uma loja própria em 1937 e a parceria terminar.

Em 1941, Salvador Dalí e ele trabalharam juntos numa coleção de jóias. Ele criou as abotoaduras Night and Day para Porter, inspirada numa de suas canções mais conhecidas. Em The Philadelphia Story, Katherine Hepburn interpreta uma socialite cujo porta-jóia é forrado de Verdura.

Verdura morreu em 1978. Continua à venda - inclusive uma das versões do bracelete Cruz de Malta.

É o parceiro perfeito para as mangas curtas, mangas 3/4 (Balenciaga as inventou com esse propósito, o de as clientes exibirem seus braceletes) e, sim, sobre mangas compridas.

Mas o melhor é usar em total simetria como faz Camila Sarpi - um de cada lado e uma atitude bem art déco. Nenhum camiseta H&M vai fazer feio à mesa dos melhores restôs se você levantar os punhos na frente dela. Bem fresco, bem verão - ainda que não seja num jardim barroco siciliano!

(inside joke, mas verdadeiro...)



De curiosidade:


Colar de ametistas e águas-marinhas brasileiras, Fulco di Verdura para Bernice McIlhenny Winterstee, 1969.

Em maio desse ano, a casa de leilão inglesa Bonhams (1793!) colocou à venda (entre 40 mil e 60 mil libras esterlinas) o colar de ametistas e águas-marinhas feito por Verdura a pedido de Bernice McIlhenny Winterstee, colecionadora de arte moderna e primeia mulher a presidir o Museu de Arte da Filadélfia (1964-1968).

Bernice comprou as pedras numa das muitas visitas ao Brasil e deu a Verdura para que fizesse mais uma peças - ela adorava entreter os amigos em jantares, sempre usando peças douradas, grandes e com pedras coloridas.


Leia também, além das memórias: Verdura: The Life and Works of a Master Jeweler, Patricia Corbett (Thames & Hudson, 2002 e 2008).

2 comentários:

Georgiana disse...

U-a-u! Obrigada por vc existir e, por egoísmo meu, por vc escrever! =)

Já tinha locado o filme O Leopardo, mas nunca o assisti... depois dessa aula, não posso mais postergar essa tarefa, que será mais interessante ainda...

bjssss

(¯`·._.·[***Celina***]·._.·´¯) disse...

Aaaaaaamo braceletes e esses são lindos e o post uma verdadeira aula, amei! (não sabia nada disso).
Isso é o legal na blogosfera, encontrar pessoas inteligentes que dividem o que sabem, obrigada Sissi.
Bjobjo