sexta-feira, 26 de junho de 2009

Don't stop till you get enough

Anônimo disse...

Comente algo sobre o estilo fashion do Michael Jackson...

Querido Anônimo,

Ainda estou em choque com a morte de Michael Jackson. Nunca achei que Neverland chegaria ao fim. Passei a manhã revendo fotos e vídeos pelo NYT, aqui e aqui para voltar no tempo.

Fui feliz nos anos 80, ouvindo Jackson e Madonna. Morria de medo do clip do Thriller, um dos primeiros filminhos de terror que eu assisti. Até hoje tenho medo _o que prova, para mim, que ele parou mesmo na minha infância.

Jackson ficou congelado nos anos 80s. Madonna é amada por ter evoluído com o tempo. Goste ou não dela, Madonna não ficou refém da própria imagem e nem virou caricatura de si mesma.

Jackson, não. Ele atravessou as anos 90 e 00, enfrentando o curto casamento com Lisa Presley e as acusações de abuso sexual, com o figurino do auge da carreira:

1. paletós/jaquetas com ombros marcados
(descobri: feitas pelos figurinistas Dennis Tompkins e Michael Bush, de Los Angeles)
2. perfectos

3. calças ajustadas e mais curtas
4. mocassins
5. brilho.

À exceção de um momento camisetinha branca no fim dos 90, ele permaneceu o mesmo. Na roupa.

É uma imagem forte. E, por uma dessas ironias do destino, Jackson sai de cena no momento em que uma jaqueta de personalidade, usada com uma calça e um top bem coadjuvantes, resume de 2009.

Nunca li se Christophe Decarnin, da Balmain, andava ouvindo Jackson para detonar essa onda 80 na moda e criar a jaqueta Sgt. Peppers, bem exército da salvação de um look. Fato é que Jackson é o autor desse street glam que reprisamos, com ar de novidade, hoje.

Diferentemente de Madonna, que optou pelo trash look _das leggings de renda e dos cabelos presos com scrunchies (aqueles elásticos de tecido gigantes e coloridos), felizmente, para sempre nos 80s _ Jackson se apropriava de peças clássicas e jogava o tempero Motown: gosto pelo brilho e pela extravagância.

Não há como get enough da jaqueta de couro de Thriller, dos paletós de paetê, da calça skinny de couro, das capri justinhas, do mocassim (não com as meias brancas, por favor! isso é ideia do Fred Astaire para chamar atenção para os pés de dançarino). Como todos os hits de Jackson, são clássicos para se ter sempre no closet e usar toda vez que é preciso sacudir o look.

As luvas de cristal Swarovski (usadas em ambas as mãos na vida real) e as meias de strass podem muito bem fazer parte do fator loucurinha de uma produção.

Jackson prova também que estilo, a casquinha de fora, não se sustenta sozinho. Ainda que milhões de fãs tenham se mantido fiéis a ele, imagem é uma projeção do que você veste e de quem você é. Sob holofote pelos encândalos de abuso sexual e da visível transformação física, Jackson não parecia tão espetacular quanto seu closet.

Como teria evoluído a imagem de Jackson se ele tivesse mantido o black power e se a autoestima, um dos motores do estilo, não fosse tão baixa? Todo mundo, na moda e na vida real, quer mudar com o tempo, mostrar que aprendeu umas coisinhas ali, que se deixou impactar por outras acolá. Jackson nunca quis sair da terra do nunca.

Agora que Neverland is over, ficam os truques de estilo que, usados com sabedoria, jamais sairão de moda.


Michael Jackson, 13: black power! (1972)



Jackson 5, em Los Angeles (1972): paletó incrível



Motown glam: smoking (1984)



Motown glam: paletó de paetê (1984)




Meias de strass (1981) e luvas de cristal Swarovski



O look de Michael Jackson e seus seguidores de luva e Ray-Ban Aviator: pintura que iria a leilão



Thriller: terno branco e camisa preta, na total inversão de valores (1984)



Thriller, o curta-metragem-clip: jaqueta



Em 1990, foco no sexo


Riccardo Tisci para Givenchy, verão 2009




Jaquetas que iriam a leilão em abril, mais tarde cancelado



Anna Dello Russo, diretora de moda da Vogue JP, de Balmain

8 comentários:

João Batista Jr. disse...

Deu vontade de ter esses casacos todos!!!

Anônimo disse...

Muito obrigada!!! (O anônimo, na verdade, é anônima!). Valeu a linda homenagem! Ele realmente criou um estilo.

luzinha disse...

o decarnin tem a emmanuelle alt como diretora de arte e stylist (ela também trabalha para isabel marant), e o crédito à recuperação fashion do guarda-roupa de mj é dado a ela, fã declarada há tempos!

Vitor dus Infernus disse...

amor, que texto lindo, mas tenho um porém pra gente pensar: Qual é o estilo da Madonna hoje? Que estilo que te vem na cabeça quando pensamos em Madonna, não é exatamente o dos anos 80, um estilo original e diferente das logomarcas que ela se entope hoje? Não seria Michael mais legítimo por sua fidelidade ao seu próprio estilo, longe da consultoria de stylists?
Não sei, é pra pensar... mas de qualquer forma, parabéns, que riqueza de imagens!!!!

Simone Esmanhotto disse...

ei, querido. vejo madonna como um ícone da obsessão do século 20 pelo novo: o novo cabelo, o novo vestido, o novo carro. novo, moderno, passou a ser um valor e as pessoas acreditam nele como um novo santo! não tem aquele comentário clichê, em forma de elogio, de que madonna sabe se reinventar? vejo madonna vítima agora da própria fórmula, quase patética na sua intranquilidade por parecer novidade aos 50 anos. transformar-se não é o resultado de uma história, mas o objetivo vazio e final da imagem, que vira manchete - o que era ela na festa do Met? o look foi justificado como uma ironia, mas aos 50 anos é preciso recorrer a própria imagem para fazer piada? não que 50 anos seja velha, longe disso, mas me parece que é a hora do conforto com a própria imagem, em que você muda, claro - ser estático é coisa de quem vive numa bolha, fora do contato com o mundo - mas de um jeito natural, orgânico (esta, uma das palavras do momento, não?). michael e madonna são opostos. como músico, michael existe. madonna é outra coisa. como look, me parece que ele fez a opção pela bolha, pelo tempo que não passa, pelo passaporte a neverland mesmo. de qualquer forma, há muita, muita originalidade nele. como todo o planeta, passei o fim de semana ouvindo as músicas e revendo os clipes (li uma coisa linda na New Yorker dizendo que foi provavelmente a última vez em que todo o planeta ouviu a mesma coisa ao mesmo tempo). ficou claro para mim como ele jamais deixou de ser aquele garotinho de 5 anos, que aprendeu a se montar num figurino glam, a dançar e a entreter. mas mudar deve estar entre uma das necessidades básicas do ser humano _ e michael tinha, a cada disco, a obsessão de fazer algo diferente, mais, melhor. Além da música, a mutação se desviou para a pele e para os traços. como madonna, michael não escapou da obsessão pelo novo (somos todos filhos do 20, né?, não podemos ser maiores do que nosso tempo). só não manifestou isso na roupa. faz sentido?

Anônimo disse...

achei o texto ruím,ruím mesmo,bem típico de quem não conhece musica,´principalmente negra.
ah,vc está falando de moda?
piorou.
jackson tinha um estilo fiel,madonna é eclética.
quando jackson estava vivo só ouvíamos shit a respeito do cara...agora a shit vai ser ao quadrado..taí o exemplo.

toscani disse...

simone, baita texto, ótimas referências, curti muito o comparativo, dois dois pop's.
Cara a morte do rapaz me fez lembrar o quanto ele foi rico em música e estilo, mesmo que na bolha, mas foi opção do rapazola, como mesmo disse.
No mais, como tem gente desocupada no mundo que não oferece nada e reclama de quem o faz. beijo!

Paloma Peruna disse...

Querida, fantástico seu texto! O melhor e mais lúcido q já li sobre o assunto até agora. Emocionou sem um pingo de pieguice. CLAP CLAP CLAP!! Bjo