quinta-feira, 22 de maio de 2008

400ões!

Eu adoro esse expressão: 400, quatrocentões. "Vocês, que apenas são capixabas do princípio do século, não sabem o que significa, em São Paulo, ser um paulista de quatrocentos anos. É mais importante do que ter uma estátua em praça pública", escreveu Joel Silveira, o repórter-gênio dos perfis da Diretrizes, de Samuel Wainer, e depois contratado por Assis Chateuabriand, que o chamava de 'víbora'. Nas palavras de Silveira, os 400ões "são criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores heróicos e sem muitos escrúpulos que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, descobriram as montanhas e fizeram as primeiras cidades".

(para visualizar a cena, sugiro o excelente Desmundo, filme de Alain Fresnot).

Viborices à parte, os 400ões - melhor, as 400onas - são criaturas que desfilam a moda lá no começo da cadeia alimentar. Para o grande mundo costuraram Dior & afins - e, por aqui, Dener se fez justamente porque vestiu, nas palavras dele, "as mulheres que comandavam a sociedade de São Paulo: Turquinha Muniz de Souza (nota da Sissi: era a mãe de Vera Bardella, ex-dona do Estúdio Vinttage), Odete Matarazzo, Christiane, então Caldeira, e Bia Coutinho." Só para citar algumas finas-flores.

Dener, que não tinha nada de bobo, não se deixava impressionar pela estirpe. "Se uma mulher não tem tradição mas tem dinheiro e quer vestir-se comigo, acho correto, e faço o vestido com o mesmo prazer", ele mesmo uma víbora. Mas assim Dener conseguia o sonho dourado da época em que o mundo começava a se dividir entre direita e esquerda: vestir, como dizia Marx, "os capitalistas da velha cepa" e a nova burguesia.

No livro do Pierre Bourdieu (gente, uma licença aqui: minha mãe é leitorasérrima do meu blog e detestou todos os posts do francês! mãe, me desculpe, mas não foi você mesma quem me ensinou que se a gente quer ficar bonita tem que sofrer? então, filosofia para embelezar!), ele fala linhas e linhas sobre essa oposição entre moda estabelecida, a dos 400ões, e da juventude - não necessariamente novinha no RG, mas nova como classe.

Assim:
"Em cada época, os costureiros atuam no interior de um universo de imposições explíticas (por exemplo, as que se referem às combinações de cores ou ao comprimento dos vestidos) ou implícitas (tal como a que, até recentemente, excluía as calças das coleções). O jogo dos recém-chegados (nota da Sissi: nesse caso, dos novos costureiros) consiste em romper com certas convenções (por exemplo, introduzindo misturas de cores ou de materiais até então excluídos), mas dentro dos limites da conveniência e sem colocar em questão a regra do jogo. Eles estão comprometidos com a liberdade, a fantasia e a novidade, enquanto as instituições dominantes têm em comum a recusa dos exageros e a busca da arte na recusa da afetação e do efeito.

Entrevista de Marc Bohan, na Dior entre 1960 e 1989 - bem à direita:
- O que impede uma roupa de ser bonita?
- O detalhe vistoso que 'come" o modelo e o desequilibra.
- Quando o detalhe é perfeito?
- Quando não é percebido.
- Isso não é a negação do acessório do choque?
- Certamente, mas essa é a definição de refinamento.


Karl Lagerfeld, em julho de 1972, para a Dépêche-Mode, bem à esquerda:
"Sou simplesmente um catalisador e capto o que está no ambiente. Há, naturalmente, um toque pessoal naquilo que faço, mas empreendo mudanças freqüentemente."

E no centro, Yves Saint Laurent. "Ele atrai para si os elogios unânimes por meio de uma arte que une, de acordo com uma hábil dosagem, as qualidade polares (clássica, sutil, harmoniosa, sóbria, delicada, discreta); que recupera as inovações espalhafatosas dos outros para transformá-las em audácias aceitáveis (lançou com êxito as calças em larga escala que, com Courrèges, tinham sido um fracasso); que transforma as revoltas da vanguarda em liberdades legítimas; e que não hesita em declarar: "É preciso ouvir as ruas". Bourdieu.

Bom, os 400ões não são privilégio paulistano. "The cafe society was born. The '400' found company of artists and actors and pretty show girls a terrific stimulant, and as the old fixed ranks gradually turned into a wheel of fashion, the hub was the fabulous Park Avenue penthouse which Condé (Nast) shared with his friend Frank Crowninshield, the beloved editor of Vanity Fair, another Nast "property" which was quartered across the hall from Vogue", lembra Carmel Snow, quando os 400ões americanos, o hi-society, começaram a se misturar com os artistas e veio então o café society (Dener, por aqui, achava tudo tão fajuto que chamava de nescafé society). A conclusão de Frank Crowninshield, mais tarde, sobre essa mistura entre direita e esquerda seria: "The new society has lost its chic".

Nessas minhas entrevistas com as capitalistas da velha cepa para a bio de moda do Dener, eu ouvi a melhor história. Uma das orgulhosas representantes dos sobrenomes de cinco linhas estava no castelo de uma condessa, na Itália, feliz da vida que ela, por ser 400ona, era tão nobre quanto a anfitriã. E 400 para cá, 400 para lá, a nobre italiana, sem alterar o tom de voz, disse: 'querida, se eu fosse você pararia de me vangloriar por ter 400 anos nas costas. Na Europa, temos famílias milenares." Ela deve ter se sentido "apenas a capixaba do início do século".

3 comentários:

Ale Garattoni disse...

Amei que seu blog voltou!! Tava super "orfã" de ler seus posts, de verdade!
bjo

Virgínia disse...

Ah, eu concordo com a tua mãe!! Menos filosofia!! Hehehehehe!! Mas adoro teu blog.

Marta De Divitiis disse...

Com ou sem filosofia, seu blog é ótimo!